27.4.09

Arquitetura funerária: cemitérios rurais.PI/Brasil


Foto:Kaki Afonso. Lagoa Alegre.PI.Abril 2009

Perdidos e abandonados pelas estradas do interior do Piauí, se encontram vários pequenos cemitérios, que abrigam túmulos esculpidos, projetados, adotando estilos variados, em materiais como alvenaria de tijolos, ferro, pedra.

Obras de arte esquecidas no espaço e no tempo, registro de vidas, de histórias que merecem ser resgatadas.

Sempre tive curiosidades pela arquitetura funerária, em seus vários períodos da história da arquitetura, desde os dolmens, crowlechs pré-históricos, passando pelas tumbas egipcias, as pirâmides, bem como as antigas e sombrias igrejas medievais, que abrigavam em suas paredes e pisos, os túmulos de seus fiéis e seguidores...até os espaços verdes projetados na contemporaneidade, que trabalham, com um novo conceito de preservação da memória de um ente querido.

Manifestações culturais distintas de cada sociedade, com seus rituais que expressam nestes espaços as sua formas de guardar na lembrança/memória a passagem por esta vida.



Foto:Kaki Afonso. Lagoa Alegre.PI.Abril 2009




Foto:Kaki Afonso. Lagoa Alegre.PI.Abril 2009



Foto:Kaki Afonso. Lagoa Alegre.PI.Abril 2009.

23.4.09

Arquitetura nativa piauiense


Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
Vista de fachada principal de uma casa nativa, autoconstruida pelos
moradores


A Arquitetura nativa piauiense é de uma beleza marcada pela simplicidade plástica e construtiva, além de ser bastante influenciada pela cultura indígena, como se observa nos sistemas construtivos empregados, nas paredes em taipa, nas coberturas em palha de babaçu, nos pisos em terra batida, nas paredes de meia altura.

Tal influência também está presente nos artefatos, como “cofos” em palha, para guardar mantimentos, nas redes, e até mesmo, nos traços marcantes dos seus habitantes, que trazem em seus rostos, todas as marcas desta origem.



Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí


Materiais como o barro, a pedra, a palha de babaçu, troncos de madeira nativa: todos naturais, extraídos do próprio local, composto pela paisagem da Mata dos Cocais.




Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
Fachada lateral



Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
Observar a técnica construtiva da parede e tratamento dado à esquadria




Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
detalhe da técnica construtiva em taipa:barro com pedra




Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
Detalhe da parede de taipa reforçada com pilar em madeira



Sem dúvida, o material construtivo dominante é a palmeira de babaçu – dela são extraídas as palhas da cobertura, as “embiras” de amarração das paredes e estrutura de telhado, os muros de fechamentos entre casas e ruas, e até mesmo, as paredes dos banheiros planejados fora do corpo principal da casa, que possuem paredes também em folhas de babaçu.




Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
A palmeira do babaçu



Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
Cobertura em palha de babaçu




Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
Detalhe em babaçu




Foto: Kaki Afonso. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
Detalhe de cerca/muro em talos de babaçu




Foto: Albino Almeida. abril 2009
Povoado do municipio de Lagoa Alegre.Piauí
A arquiteta entrevistando uma nativa em sua varanda de terra batida
com um bem cuidado jardim

21.4.09

A preservação arquitetônica da Casa da Fazenda São José em Lagoa Alegre: Piauí.


foto:kaki afonso.abril 2009
Vista da fachada principal.



A Localização e um pouco da história.

A Fazenda São José está situada no município de Lagoa Alegre (latitude 04º31’ 615” sul, longitude 42º07’105” oeste), a 99 km de Teresina- capital do Piauí, nordeste do Brasil- e está implantada na região da Mata dos Cocais, sendo composta em seu entorno paisagístico, por várias lagoas naturais, carnaubais e babaçuais, que conferem ao local uma beleza natural.

Antes denominada “Fazenda Altamira”, era também conhecida pelos moradores daquela região, por “Lagoa Alegre de Cima”. Possuiu como antigos proprietários o Sr. Domingos Nunes e D. Mulata, filha de Sr. Filedarino, que viveu 104 anos no município, que anteriormente estava vinculado à cidade de União, segundo depoimentos do Sr. Osael Leal, atual proprietário.

Desde os anos 30, a propriedade passou para as mãos do Sr. José Machado Moita e a Sra. Angélica Portela Moita que tiveram quinze filhos, havendo sido criados todos ali, durante um bom tempo, e os alfabetizando em escola construída em anexo à casa, sendo em seguida, enviados para estudar em centros maiores, como Teresina, Recife e Salvador.

Atualmente, os seus proprietários são Osael Borges Leal e Maria Glacy Moita Leal, filha do Sr. José Machado Moita, que vêm conservando a edificação desde a década de setenta.


foto:kaki afonso.abril 2009
D. Glacy,Sr. Osael e Dr.Deusdedith Moita


A Casa da Fazenda.

A fazenda possuía como sede, a casa grande, que além de funcionar como residência, abrigava também, uma loja de gêneros de primeira necessidade, e tecidos, fumo, queresone,entre outros,além de estocar e vender a cera de carnaúba, coco babaçu e nozes de tucum. Em área em anexo, geminada à edificação, foi criada uma pequena escola, que alfabetizava os filhos do proprietário, bem como, os moradores.

O acesso à casa é feito através de uma porteira, que conduz a um grande área plana e alta, "terreiro", com árvores frondosas, como o oitizeiro por exemplo, que contribuem climaticamente no conforto da mesma e de seu entorno.


foto:kaki afonso.abril 2009
Vista da fachada principal


Nos quintais em volta da edificação, estão situadas hortas, pomares com frutas tropicais, chiqueiros que abrigam a criação de galinhas, capotes. Existe resquício de um antigo curral para bovinos e estábulo para criação de caprinos.Também, a fazenda produz uma agricultura de subsistência, havendo plantações de milho, feijão e arroz, possibilitando a sustentabilidade daquela comunidade.

O volume da casa grande é característico da arquitetura rural piauiense, com seu grande telhado em quatro águas, que marca a paisagem com sua sobriedade e imponência. Partindo de uma alta cumeeira, chega-se às terminações de beirais, com uma pequena altura, de aproximadamente 2.50 m, criando uma agradável escala humana, contribuindo na proteção climática dos "avarandados" que circundam a frente e a lateral direita do imóvel.

O programa arquitetônico está composto de "avarandado frontal "(terraço), cômodos que abrigavam a loja, armazéns - de carnaúba, babaçu, sal, milho- quartos, alcovas, e uma grande varanda posterior, que funciona tanto como área de estar, como também, sala de jantar. Os “puxados” ,construidos posteriormente, abrigam cozinha, despensa, e banheiros.


foto:kaki afonso.abril 2009
Vista lateral:peitoril e avarandado


O telhado é um dos pontos fundamentais desta arquitetura, composto por estruturas em madeira maciça, utiliza o âmago do jatobá como peça central, forquilhas e “guieros” em madeiras como o pequiá, a "laranjinha" e a "farinha seca", extraídas de árvores “linheiras” (retas) e duras, segundo explicação dada pelo atual proprietário.



foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe de telhas feitas na fazenda para a cobertura da casa grande.


O interior da casa é bastante sóbrio, despojado e simples. Observa-se o uso de troncos de carnaúba usados como armadores de redes, como base para cabides, e como ripas dos telhados. O pé-direito dos ambientes é alto, as paredes vazadas e inexistem forros. O piso, originalmente em lajotas cerâmicas de 20 cm x 20 cm, foi substituído por uma capa de cimento queimado.



foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe de cabides e armador de redes em tronco de carnaúba.




foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe de armador de redes com base em carnaúba.




foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhe do interior de quarto:observar o uso de troncos de carnaúba.



As paredes do corpo principal da casa são em adobe e taipa, onde foram utilizados barro e pedra “cabeça de jacaré” (canga laterítica) sendo revestidas com pintura em cal.

As esquadrias são originais, em madeiras fichadas e maciças, possuindo soleiras também em madeira, que se conservam até hoje. O uso de "tramelas", que fazem a segurança das mesmas, desperta a atenção, pela sua simplicidade e eficiência na segurança.



foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhes das esquadrias em madeira fichada.




foto:kaki afonso.abril 2009
Detalhes das esquadrias em madeira fichada.




A preservação da Casa.


Felizmente, observa-se que a família vem esforçando-se em preservar as características originais da casa, mesmo tendo que adaptar novos espaços ao corpo principal da mesma.

O imóvel está bem conservado, necessitando de alguns reparos em sua estrutura na parte posterior, mas de uma forma geral, pode-se afirmar que esta ainda possibilita ao observador, uma leitura do que foi e é, a arquitetura rural piauiense em sua essência.



foto:kaki afonso.abril 2009
José Henrique Moita
(de camisa azul) com seus familiares.


Um dos netos do Sr. José Machado Moita, o geólogo José Henrique Moita, vem desenvolvendo um belo trabalho de resgate da história familiar e sócio-cultural da antiga Fazenda, através de registro em audiovisual de depoimentos orais de membros da família, de antigos "agregados" e técnicos, além de levantamentos fotográficos e documentais. A sua proposta visa produzir um material de educação patrimonial que divulgue a pesquisa, elaborando para isso, vídeos, livro e uma possível exposição para ser veiculada em espaços acadêmicos e culturais.

José Henrique pretende sensibilizar mais ainda a família da importância da preservação da antiga casa e de seu entorno, não apenas, como possuidora de um valor sentimental, mas também e principalmente, como valor histórico – cultural na preservação da identidade da memória piauiense.





foto:kaki afonso.abril 2009
Moradores da Fazenda.




foto:Albino Almeida.abril 2009
A arquiteta Kaki Afonso com crianças caboclas da região, tendo ao fundo a Casa Grande da Fazenda São José de Lagoa Alegre.

15.4.09

Prêmio Pritzker 2009: Arquiteto suiço Peter Zumthor




O arquiteto suíço Peter Zumthor é o vencedor do Prêmio Pritzker 2009, a mais importante distinção internacional concedida a um arquiteto. O prêmio reconheceu os trabalhos variados de Zumthor, que incluem capelas, museus, casas de repouso e um complexo de termas. O arquiteto receberá US$ 100 mil e também uma medalha de bronze, segundo informação da revista AU.




Filho de um marceneiro, Zumthor aprendeu carpintaria em idade precoce. Ele estudou no Pratt Institute, em Nova Iorque na década de 1960. O arquitecto trabalhou em muitos projetos de restauração histórica, que deu a ele uma maior compreensão da construção e as qualidades de diferentes materiais de construção rústica.








Os seus prédios exploram as qualidades espaciais,os detalhes construtivos e materiais. Em 1998, Zumthor recebeu o Prémio de Arquitetura Carlsberg pelos seus desígnios do Kunsthaus Bregenz em Bregenz, na Áustria e da Suíça Turismo em Vals, Suíça. Zumthor lecionou no Instituto de Arquitetura Sul da Califórnia em Los Angeles, na Universidade Técnica de Munique, na Academia de Arquitetura Mendrisio, Università della Svizzera Italiana, e na Harvard Graduate School of Design.





O júri elogiou Zumthor pelas estruturas atemporais que se inspiram nas culturas em que são construídas. Segundo os jurados, os edifícios do arquiteto "têm uma presença marcante e ainda evidenciam o poder de uma intervenção criteriosa, mostrando-nos mais uma vez que a modéstia da abordagem e a ousadia do resultado final não são mutuamente excludentes".

Outras obras de Zumthor são o Museu Kunsthaus (Áustria), o Museu de Arte Kolumba (Alemanha), a Capela de São Benedito (Suíça) e a Capela rural Irmão Klaus (Alemanha).

Fonte das imagens: www.piniweb.com.br

5.4.09

A Carnaúba na cultura piauiense.


foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
frutos da carnaúba





Caranaúba, Caranaíba: Carnaúba.


foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
Campo Maior: um dos cenários naturais da palmeira



foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
O habitat natural: áreas molhadas, várzeas de rios.




foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009



foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
A folha em leque da carnaúba




foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
detalhe do tronco da carnaúba




foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
detalhe do tronco da carnaúba




foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
detalhe de uma das partes do tronco da carnaúba




foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
detalhe do uso da carnaúba em tetos:ripas, caibros e vigas em casas
piauienses





foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
detalhe do uso da carnaúba em tetos:ripas, caibros e vigas em casas
piauienses



foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
detalhe de troncos da carnaúba usados em estruturas de tetos e paredes, divisórias
.



foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
vassouras confeccionadas em palha de carnaúba





foto:Kaki Afonso. Campo Maior: abril 2009
Design de caminho de mesa usando a palha da carnaúba



Este ano, participo como coordenadora do grupo de alunos do curso de arquitetura e urbanismo da UFPI, da Mostra organizada pelo SEBRAE/ Piauí, “casa Piauí Design”, que se propõe a apresentar uma coleção de cinco peças a ser criada por estes grupos. A artista plástica,Heloisa Crocco, consultora do projeto,propôs juntamente com a equipe da instituição, que se trabalhasse a coleção baseada no tema da “carnaúba”, uma vez que constatou que este elemento tem uma forte presença na paisagem piauiense.

O primeiro passo que foi dado, como coordenadora do Grupo Ufpi, foi de realizarmos uma visita de campo ao habitat natural desta palmeira, havendo sido escolhido, o município de Campo Maior, um dos mais ricos cenários desta paisagem de carnaubais do Estado.

A visita proporcionou um contato direto dos alunos/criadores com o tema, despertando o “olhar” mais próximo sobre as texturas, cores e formas, de caules, folhas, frutos, raízes e do entorno desta árvore, que sem dúvida, é um dos símbolos mais fortes da cultura piauiense.

Como esclarecimento, a palavra carnaúba tem origem da palavra “caranaíba” ou de “caranaúba”, que significa em linguagem indígena, palmeira que arranha, ou palmeira escamosas, de “caraná”, arranhante, escamoso, cascudo, e iba ou ubá, árvore, segundo Braga (1960,p.166-167).

A palmeira tem como seu meio ambiente natural toda a região semi-árida nordestina, em solo de aluvião argiloso, compacto, de várzea, sendo encontrada em palmeirais cerrados, acompanhando os rios temporários por vários quilômetros. Desde o Estado do Maranhão, a carnaúba pode ser encontrada em vários outros Estados nordestinos, subindo o São Francisco, alcançando o norte de Minas Gerais.

É conhecida também, como “árvore da vida”, por atender em suas múltiplas aplicações a maior parte das necessidades da civilização indígena, inicialmente, desde a extração de alimentos como sal, açúcar, farinha, e posteriormente, à produção da cera de carnaúba utilizada em produção de velas, cosméticos e resinas protetoras de revestimentos de pisos e paredes.

Segundo Braga, as primeiras casas brasileiras bem como, os primeiros fortins construídos na orla e nos vales dos rios nordestinos foram executadas em carnaúba, sendo principalmente utilizada na construção de estruturas de telhado em vigas, caibros e ripas, conforme pode ser constatado na produção arquitetônica piauiense colonial.

Sobre suas folhas, escreveu Braga (1960, p.160):

“Os leques formados à roda do topo da palmeira, ao atingirem o seu completo desenvolvimento, inclinam-se como as aspas de um chapéu de sol, depois amarelecem e se abatem em direção ao caule. Por fim, se desprendem, secos, cor de palha.”

Fonte: Braga, Renato. (1960). Plantas do Nordeste. Especialmente do Ceará. Fortaleza:Imprensa Oficial.2ª. Edição.